24 de junho de 2016

boletim 8 1Fotos: Clóvis Fabiano

Com quase 700 inscritos, o seminário internacional "Oportunidades Econômicas no Contexto das Mudanças Climáticas", realizado entre 1º e 2 de junho, no Museu do Amanhã, mostrou que a economia de baixo carbono é uma agenda que veio para ficar. O alto nível dos debates revelou o interesse significativo em atividades inovadoras e alinhadas a um modelo de desenvolvimento de baixa emissão de gases de efeito estufa, por parte de empresas, instituições financeiras, organizações da sociedade civil e academia. Também ficou claro que há disposição dos diferentes setores para o diálogo e para a busca de soluções imediatas.

Organizado pela Coalizão Brasil, União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN) e Museu do Amanhã, o evento contou com patrocínio do Norwegian Ministry of Climate and Environment, WRI Brasil (projeto Verena), TNC e WWF, além de apoio de Conservação Internacional, CEBDS, FBDS. Focou no reflorestamento e na restauração de paisagens e florestas, e também abordou os trabalhos dos sete grupos de trabalho da Coalizão, apresentando os passos concretos para implementação do Acordo de Paris e a transformação econômica nele embutida.

No discurso de abertura, Roberto Waack, presidente do conselho da Amata e do conselho diretor do WWF Brasil, sinalizou: “A Coalizão, nesses 18 meses de intensa, profícua e, muitas vezes, dolorosa convivência está provando que os solitários, em conjunto, conseguiram efetivar a troca entre duas das mais poderosas preposições da gramática universal: ou por e. Sim, é possível produzir e conservar. Deixemos definitivamente para trás o falso paradigma de produzir ou conservar. Ninguém bate o Brasil neste campo. Já sabemos disso e nos dois próximos dias tentaremos traduzir um pouco desse grande empreendimento”.

Produto novo para o setor financeiro
Além dos benefícios na regulação do clima, preservação de água, solo e biodiversidade, a recuperação de paisagens e florestas pode se tornar uma importante e inovadora fonte de renda e de empregos. Para isso, apontou-se a necessidade de desenvolver a silvicultura de espécies nativas, passando pela disponibilidade de mudas e sementes, bem como por modelos de negócio apropriados, como já ocorre com as exóticas (eucalipto, por exemplo).

Também ganhou destaque a necessidade de melhorar a negociação com investidores. "Restauração é um produto novo para o setor financeiro. Precisamos encontrar uma forma de realçar que se trata de uma grande oportunidade", afirmou Carlos Nomoto, secretário-geral do WWF, durante painel sobre investimentos.

A característica da Coalizão Brasil de reunir vozes diversas e buscar a agenda em comum foi destacada pela mediadora dessa discussão. "A agenda da economia de baixo carbono é complexa. É preciso unir forças, e a Coalizão é um exemplo desse esforço. Sozinhos, empresas, sociedade civil e governo não conseguirão implementá-la", afirmou Marina Grossi, presidente do CEBDS.

Em outro debate — que tratou de oportunidades e desafios na implementação de projetos — André Guimarães, diretor executivo do Ipam, disse que a restauração deve ser inserida em uma cadeia produtiva. "Ela precisa ser vista como uma atividade de mainstream, e não como algo que ocorre em paralelo." Lembrou, ainda, que a restauração integra um processo de melhor uso do solo. "Esse é nosso principal ativo: 25% do PIB do país depende do uso da terra. Temos que reverter seu processo de degradação, para não matar a nossa galinha dos ovos de ouro."

Adequação ao Código Florestal
As práticas que reduzem emissões de carbono e a intensificação da atividade agrícola e da pecuária também estiveram em foco. Afinal, o setor do agronegócio terá muito a ganhar se incorporar, em escala, as tecnologias de baixo carbono, uma vez que tais premissas agregam valor ao produto final no cenário comercial internacional.

Marcelo Vieira, vice-presidente da Sociedade Rural Brasileira, sustentou que a adequação ao Código Florestal definirá quanto dos produtos brasileiros são sustentáveis. Ele integrou o painel sobre oportunidades econômicas em meio ao desafio das mudanças climáticas. "Com a implantação do Código Florestal, um dos desafios será levar a adequação da valoração dos produtos agropecuários brasileiros às negociações de comércio e do clima."

Nesse contexto, integração vira palavra de ordem. "As políticas públicas precisam estar integradas. É preciso ter uma visão sobre qual a qualidade de desenvolvimento que queremos", disse Carlos Rittl, secretário executivo do Observatório do Clima.

Ricardo Abramovay, professor da FEA-USP, ressaltou a importância da colaboração, durante o último painel do seminário. "Precisamos de várias coalizões. São viveiros de mudança de comportamento. O que me encanta nessa iniciativa é que ela é a materialização da passagem da economia da destruição da natureza para a economia do conhecimento da natureza."

Objetivos dos grupos de trabalho
Os sete grupos de trabalho (GTs) da Coalizão apresentaram os objetivos que elaboraram para cumprir em 2016, além de rotas para implementação das metas da INDC brasileira. Elas remetem às temáticas que nomeiam os GTs: agricultura de baixo carbono, bioenergia, Código Florestal, economia da floresta tropical, restauração e reflorestamento, valoração do carbono e serviços ecossistêmicos, além de cooperação internacional. Tudo está devidamente registrado na publicação intitulada Pós-Acordo de Paris: Caminhos para Implementação da Economia de Baixo Carbono.

Durante o evento movimento lançou três estudos de impacto econômico, encomendados ao Instituto Escolhas e ao Centro de Estudos em Sustentabilidade da FGV (GVCes), sobre custos e benefícios de multiplicar por dez a área de manejo florestal sustentável no país; implementação do plano ABC e da INDC brasileira na agropecuária; e recuperação de 12 milhões de hectares de florestas. Os cálculos apontam para possibilidades e cenários diversos que podem e devem ser aprimorados. O resumo executivo e os três relatórios completos estão disponíveis no site da Coalizão Brasil.

No encerramento, o empreendedor ambiental Guilherme Leal destacou que a participação de todos os setores é fundamental na nova realidade que se delineia para o terceiro milênio. "Se quisermos melhorar nossa condição de vida, não basta ser bom cidadão, temos de botar a mão na massa. Escutar o outro, se abrir, ceder, mudar e construir caminhos para nós e para as gerações futuras. Não se trata apenas de emitir menos gases de efeito estufa, mas também de criar prosperidade e distribuí-la.”