Debatedores abordaram fatores que contribuem para o surgimento de doenças infecciosas no mundo e na Amazônia, como o desmatamento e o tráfico de animais

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A relação entre a destruição de florestas tropicais e o surgimento de doenças com potencial para se tornarem pandemias foi o tema de um webinar realizado pela Coalizão Brasil e pela iniciativa Uma Concertação pela Amazônia no dia 30 de junho. A importância de agir na prevenção e como a Amazônia se insere nesse contexto também foram temas abordados no evento.

O debate "A emergência de doenças infecciosas e a destruição da natureza" teve a participação de Mariana Vale, professora do Departamento de Ecologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e presidente da Seção da América Latina e Caribe da Society for Conservation Biology, e de Neil Vora, médico da Conservação Internacional (CI) que desenvolveu e liderou o programa de rastreamento da Covid-19 em Nova York, em 2020-21.

Os dois são membros de um grupo que atua para promover a prevenção a pandemias no mundo, a Preventing Pandemics at the Source Coalition (PPATS). Rachel Biderman, cofacilitadora da Coalizão e vice-presidente sênior para as Américas da CI, foi a mediadora.

“A saúde humana está intrinsecamente ligada à saúde do planeta”, afirmou Vora durante sua apresentação. Segundo o médico, doenças infecciosas com origem em animais, a exemplo da gripe espanhola, ebola, zika, HIV e, se comprovado, também a Covid-19, não são acontecimentos randômicos, mas resultado da forma como o homem interage com a natureza.

Elas surgem quando ocorre a transmissão, de animais para seres humanos, de um patógeno (organismo que provoca doenças). Esse evento é chamado de “spillover”, e os principais fatores que favorecem sua incidência incluem o desmatamento, a caça e tráfico de animais silvestres, a falta de biossegurança na criação de animais e as mudanças climáticas.

Investimento em prevenção e combate à desigualdade

Para os especialistas, as medidas de prevenção são fundamentais para reduzir as chances de um “spillover” acontecer. No entanto, elas não estão recebendo a devida atenção. Atualmente, entidades como a Organização Mundial da Saúde (OMS) e o G20 estão discutindo protocolos e fundo com recursos para promover o preparo e resposta rápida a futuras pandemias, mas o item “prevenção” mal é mencionado nos documentos em elaboração, alerta Vora.

Isso acontece, entre outros motivos, porque a formação em medicina não contempla disciplinas como ecologia e antropologia e porque os tomadores de decisão muitas vezes focam mais em resultados de curto prazo. Além disso, há uma tendência do ser humano a reagir aos fatos, mais do que a prevenir, explica.

Entre as medidas de prevenção consideradas importantes pelos especialistas estão: parar o desmatamento; fortalecer a saúde e segurança de populações que vivem próximas a áreas com altos índices de desmatamento; proibir ou regular de forma rigorosa a caça e a comercialização de animais com maior potencial de risco; e melhorar o controle de infecção em animais de criação.

Ações de prevenção são de grande importância também para proteger as populações mais vulneráveis, já que estas têm menos capacidade de estarem preparadas ou responder rapidamente a uma pandemia. Por isso, para Vora, “a degradação ambiental e seu impacto na saúde humana também estão relacionados à questão da desigualdade”.

“Tudo que fazemos para proteger a natureza tem benefício para a saúde das pessoas. Conservação é saúde pública”, afirma.

Riscos do surgimento de pandemias na Amazônia

Mariana Vale, da UFRJ, abordou a probabilidade de uma pandemia surgir a partir da Amazônia e fez uma estimativa de custos para a criação de um programa de prevenção baseado em ações ambientais.

Segundo ela, uma paisagem com mais de 25% de área desmatada aumenta significativamente a probabilidade de ocorrência da transmissão viral entre animais silvestres e seres humanos e animais de criação. O arco do desmatamento da Amazônia, onde também há muita atividade pecuária, é um exemplo desse tipo de paisagem.

A caça e o tráfico de animais também são um fator de risco, bem como o desconhecimento sobre os vírus que existem na rica fauna da floresta. “A Amazônia é a região com maior déficit de registros de vírus e temos que ir atrás dessa lacuna de conhecimento”, afirmou.

 Custos da prevenção

Vale mostrou, ainda, que investir em prevenção demanda menos recursos financeiros e salva muito mais vidas do que as ações de resposta a uma pandemia. No século XX, segundo ela, a média anual de perda de vidas humanas para doenças infecciosas originadas de patógenos transmitidos por animais, contando a partir da gripe espanhola, foi de 3,3 milhões. O custo associado foi de US$ 350 bilhões ao ano.

Uma estimativa feita por Vale e outros pesquisadores, publicada na revista Science, mostrou que o custo de um programa de prevenção a pandemias em escala global seria de US$ 22 bilhões a US$ 31 bilhões ao ano.

Para a Amazônia, os cálculos foram feitos a partir dos custos do Plano de Ação para Prevenção e Controle do Desmatamento na Amazônia Legal (PPCDAM). A redução significativa do desmatamento, entre 2005 e 2012, custou US$ 1 bilhão ao ano, sendo que boa parte dos recursos vieram do Fundo Amazônia, explicou.

Já o gasto do governo brasileiro para responder à pandemia da Covid-19 foi de US$ 125 bilhões de dólares até junho de 2022, sem contar as perdas econômicas decorrentes dela.

“É muito mais interessante, do ponto de vista econômico, partir para um programa de prevenção de pandemias do que lidar com elas uma vez que emergem”, concluiu a pesquisadora.