Encontro reuniu líderes do movimento, que apresentaram os principais trabalhos desenvolvidos no semestre, e debateu a inserção da agenda agroambiental na pauta dos candidatos

 

plenaria2022Foto: Rodrigo Peixoto

 

Pela primeira vez após o início da pandemia de Covid-19, a Coalizão Brasil voltou a realizar sua plenária de forma presencial. A 1ª Plenária de 2022 aconteceu no Farol Santander, prédio histórico na região central de São Paulo, e marcou o aniversário de sete anos do movimento. O evento também foi transmitido online, via YouTube.

Além das atualizações dos trabalhos das Forças-Tarefa (FTs) e Fóruns, houve um debate com o tema “Desenvolver sem desmatar: a agenda agroambiental nas eleições”.

Rachel Biderman, vice-presidente sênior para as Américas da Conservação Internacional e cofacilitadora da Coalizão, deu as boas-vindas aos participantes, lembrando a celebração pelos sete anos do movimento.

“Crescemos muito e considero hoje, a Coalizão, como um dos bastiões da democracia no Brasil”, afirmou.

José Carlos da Fonseca, também cofacilitador da Coalizão e diretor-executivo da Indústria Brasileira de Árvores (Ibá), ressaltou o papel de defesa da democracia por parte do movimento.

“É preciso construirmos, juntos, setores público e privado, academia e organizações da sociedade civil, diretrizes que possam promover uma nova economia no país que gere emprego e renda sem causar desmatamento”, disse.

As principais realizações do semestre foram citadas por Laura Lamonica, coordenadora executiva da Coalizão, que demonstrou, em números, a vitalidade do movimento – em 2022, até o início de junho, foram 26 reuniões de advocacy, 60 encontros dos Fóruns de Diálogo e Forças-Tarefa (FTs), 12 eventos promovidos ou realizados em parceria com outras instituições e 887 menções na imprensa.

Atualização dos Fóruns de Diálogo e Forças-Tarefa

A plenária trouxe um formato diferente para a apresentação do status de trabalho dos Fóruns e FTs, com os líderes das forças-tarefa respondendo a perguntas feitas por Rachel Biderman. Rubens Benini, gerente em Restauração Ecológica da The Nature Conservancy Brasil e colíder da FT Restauração, descreveu a nova etapa do Observatório da Restauração e do Reflorestamento, que está em fase de depuração e refinamento de dados sobre restauração para apresentar as informações de forma ainda mais transparente.

Eduardo Bastos, CEO da My Carbon e colíder da FT Mercado de Carbono, comentou as legislações que visam à regulamentação do sistema de comércio de emissões de gases de efeito estufa. O tema foi alvo de um decreto publicado em maio pelo governo federal e é debatido na Câmara dos Deputados, onde tramita o PL 528/2021.

"Somos o grupo que pode contribuir para que o Brasil consiga entrar de cabeça no mercado de carbono. Há muitos compradores e precisamos fomentar a participação do país para que se destaque mundialmente nesse setor”, afirmou.

Representando a FT de Silvicultura de Nativas, Rodrigo Ciriello, diretor comercial da Futuro Florestal, ressaltou que o mercado de espécies nativas ainda precisa de arcabouço que o impulsione.

“Para deslanchar, é preciso financiamento, investimento em pesquisa e desenvolvimento e maior alinhamento à legislação brasileira, aos moldes de como já acontece com a silvicultura de exóticas”, assinalou.

Leila Harfuch, gerente-geral da Agroícone e colíder da FT Finanças Verdes, lembrou as contribuições feitas pela Coalizão à reformulação do Plano ABC.

“O ABC+ foi publicado com metas bastante desafiadoras e precisamos dos instrumentos financeiros para que os produtores possam investir em suas propriedades”, explicou. “Isso, somado a instrumentos de gestão de risco, pode ser indutor para a transformação agropecuária, redução das emissões de carbono e adaptação e resiliência às mudanças do clima.”

A FT Bioeconomia foi representada pela colíder Luciana Villa Nova, que compilou os trabalhos de 2021 para a construção de um conceito e posicionamento da Coalizão sobre o tema. Os principais stakeholders foram mapeados e já foi dado início às conversas para parcerias no tema.

“Fizemos também conversas com outras entidades do governo, sendo que o mais recente foi o Ministério de Ciência, Tecnologia e Inovação, porque ele montou o projeto ODBio – Oportunidades e Desafios da Bioeconomia. Isso é muito interessante, porque ele foi apresentado como um projeto de Estado, não de governo. Então, mesmo se houver transição de governo, a agenda se mantém”, afirmou Villa Nova.

Por fim, Leonardo Sobral, gerente florestal do Imaflora, colíder da FT Concessões Florestais, contou que o grupo optou por trabalhar em contribuições ao PL 5518/2020, que altera pontos da Lei de Gestão de Florestas Públicas, facilitando a concessão para conservação e restauração, bem como para atividades produtivas sustentáveis. Segundo Sobral, ter o tema do manejo de floresta nativa na Amazônia em pauta na Coalizão é importante, já que poucas organizações e redes o têm discutido.

“Já no Livro Verde, um dos documentos fundamentais de constituição da Coalizão, trouxemos a ambição de termos uma área de 25 milhões de hectares sob manejo florestal na Amazônia. Hoje são apenas 2 milhões, então é possível perceber o tamanho do desafio”, afirmou.

Debate: ‘Desenvolver sem desmatar: a agenda agroambiental nas eleições’

A segunda parte da plenária foi dedicada a um debate sobre a agenda agroambiental nas próximas eleições, com mediação de Paulo Dallari, diretor de Relações Governamentais da Natura&Co, e Renata Piazzon, diretora do Instituto Arapyaú, líderes do Comitê Eleições e integrantes do Grupo Executivo da Coalizão.

Os participantes do debate foram Bruno Carazza, professor da Fundação Dom Cabral e colunista do Valor Econômico; Gabriel Lui, coordenador de Uso da Terra do Instituto Clima e Sociedade (iCS); Paulo Hartung, presidente da Ibá e ex-governador do Espírito Santo; e Suely Araújo, especialista em Políticas Públicas do Observatório do Clima e ex-presidente do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama).

Todos concordaram que a primeira medida para que a pauta ambiental chame a atenção dos candidatos é fazer com que a população esteja atenta a ela. E isso só é possível quando as pessoas conseguem conectar os temas ambientais aos sociais.

“A relação entre qualidade de vida, os problemas percebidos pela população e a narrativa ambiental precisa ser aproximada. É preciso mostrar que há conexão entre a tomada de decisão política nesses temas e a vida das pessoas”, disse Lui.

Suely Araújo acrescentou a urgência de mostrar que as atividades ilegais que ocorrem hoje na Amazônia, como desmatamento e garimpo, não melhoram a vida das pessoas e não geram riqueza:

“Esse discurso precisa ser levado à população. E, também, elaborar um projeto de desenvolvimento sustentável para a Amazônia que inclua as populações.”

Bruno Carazza ressaltou que o Brasil ganhou 2 milhões de eleitores menores de 18 anos em 2022, um público “significativo”, que elenca o meio ambiente como uma “preocupação futura”, e não atual.

“No momento, os jovens buscam dos candidatos propostas voltadas à geração de emprego e renda e que deem conta da insegurança alimentar pela qual têm passado. Precisamos trazer a eles a perspectiva do debate sobre clima e desmatamento para a realidade de agora”, reivindicou.

Paulo Hartung concluiu o debate lembrando a importância de pensar em influenciar os candidatos não somente à Presidência da República.

“Importante incluirmos, nas discussões, as eleições para os governos subnacionais e para o Congresso Nacional. Gente qualificada faz diferença nas temáticas importantes para o país nesses âmbitos”, finalizou.

A 1ª Plenária de 2022 da Coalizão Brasil pode ser assistida, na íntegra, no YouTube do movimento.