Coordenadora executiva do movimento, Laura Lamonica abordou os desafios para os produtores brasileiros; agenda sobre o tema precisa estar conectada às do combate ao desmatamento e à promoção de PSA

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O Diálogo Agropolítico (APD) Brasil-Alemanha e o Center for Development Research, da Universidade de Bonn (Alemanha), realizaram, no dia 30 de junho, um painel para discutir como o mercado global de carbono pode se tornar uma fonte importante de recursos para a agricultura e quais os desafios técnicos, econômicos e políticos para que isso aconteça. Laura Lamonica, coordenadora executiva da Coalizão Brasil, foi uma das participantes do evento.

O painel "Carbon farming & carbon markets – Perspectives for Temperate and Tropical Climates" aconteceu em Bonn e contou também com a participação de Lini Wollemberg, da Alliance of Biodiversity International & International Center for Tropical Agriculture (Ciat); Sabine Frank, da Carbon Market Watch; Ladislau Martin Neto, da Embrapa; Bernhard Osterburg, do Thünen-Institute; e Daniel Vargas, da Fundação Getúlio Vargas (FGV).

Em sua fala, Lamonica afirmou que há diferenças na forma de promover esse mercado e descarbonização entre os grandes produtores e os agricultores familiares e pequenos produtores brasileiros.

“Para os pequenos produtores e agricultores familiares, é preciso que haja programas sólidos de assistência técnica focada em práticas agrícolas de baixo carbono e facilidade de acesso ao crédito rural”, explicou. “Isso pode, inclusive, incentivar a restauração de áreas degradadas, além de reduzir a pressão para desmatar”.

Já para os grandes proprietários, Lamonica afirmou que é preciso que os investimentos sejam focados, além das práticas de baixa emissão de carbono, em aumentar a produção sem converter áreas de vegetação nativa. “Já temos mostrado que somos capazes disso”, afirmou.

A coordenadora executiva da Coalizão também pontuou que é importante para o Brasil que a agenda de carbono seja combinada com outras políticas, em especial o combate ao desmatamento, e com instrumentos que valorizem as florestas em pé, como pagamento por serviços ambientais (PSA) e bioeconomia.

Intercâmbio de conhecimentos na agricultura

O painel sobre mercado de carbono fez parte da programação de uma viagem de intercâmbio, promovida pelo APD, para troca de experiências e informações sobre mercados de carbono e agropecuária nos dois países. O APD é um acordo binacional para intercâmbio técnico e político visando o fortalecimento da sustentabilidade, justiça climática e competitividade dos setores agropecuário e alimentício.

“Queremos reforçar o intercâmbio de conhecimentos da Alemanha e do Brasil”, afirmou o diretor do APD, Ingo Melchers.

Durante uma semana, a delegação brasileira participou de encontros com representantes do Ministério da Alimentação e Agricultura da Alemanha, da Federação das Indústrias Alemãs, da Associação Alemã de Agricultores e da Agência Alemã de Cooperação Internacional (GIZ), entre outras atividades. “Esperamos que haja um follow up, que sejam feitos vários encontros, após estes, de cooperação científica, política e técnica, entre os dois países", acrescentou Melchers.

Eduardo Bastos, CEO da MyCarbon e colíder da Força-Tarefa Mercados de Carbono da Coalizão Brasil, participou da programação:

“Viemos para discutir principalmente o carbon farming, ou seja, a agenda de carbono para uso do solo”, disse.

Segundo Bastos, outro objetivo do encontro era entender quais são os rumos da política europeia em relação ao uso do solo e pagamento por serviços ambientais focados em carbono, além de pensar em formas para montar uma agenda de cooperação de longo prazo entre diferentes setores dos dois países.

A pesquisadora Camila Dias de Sá, do Insper Agro Global, também membro da Coalizão, afirmou que foi possível mostrar aos interlocutores alemães a escala do que precisa ser feito no Brasil para levar essa agenda de fato para os produtores e promover práticas sustentáveis.

Outro membro da delegação brasileira foi Daniel Vargas, coordenador do Observatório da Bioeconomia da Fundação Getúlio Vargas (FGV). Para ele, o grande tema da viagem foi o desafio da descarbonização da economia, além de ela ter proporcionado uma melhor compreensão sobre os esforços que os dois países têm feito, cada um com os seus desafios.

“Mas também percebo que este é um momento decisivo para o Brasil assumir como prioridade absoluta a contenção do desmatamento, para evitar que isso prejudique relações econômicas e diplomáticas no futuro”, completou Vargas.

Adriano Anselmi, da Bayer, apresentou o projeto de carbono que a empresa desenvolve no Brasil com cerca de 1.800 produtores:

“Para esse projeto, conectamos produtores, pesquisadores, consultores e agentes da cadeia. Então, estamos no caminho certo, aglutinando stakeholders ao redor da agenda de carbono.”

Representante da Embrapa Instrumentação convidado para integrar a delegação brasileira, Ladislau Martin Neto, que também falou no painel do dia 30, destacou que “foi possível mostrar o valor que a agricultura brasileira tem, e que produtividade e sustentabilidade são conciliáveis”, além de ter tido a oportunidade de conhecer mais sobre a agricultura alemã.

Luís Gustavo Barioni, da Embrapa Agricultura Digital, completou enfatizando que o intercâmbio foi um grande aprendizado para ambos os lados – Brasil e Alemanha –, inclusive para enxergar no debate a oportunidade de construção de consensos.

Também fizeram parte da delegação brasileira Marcelo Morandi, pesquisador da Embrapa Meio Ambiente, e Carlos Alberto dos Santos, do APD.