Em entrevista, Renata Piazzon, diretora do Instituto Arapyaú, e Paulo Dallari, diretor de Relações Governamentais da Natura &Co, explicam como foi o processo de construção das propostas e mensagens-chave que a Coalizão está levando aos candidatos às eleições

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As propostas apresentadas no documento dirigido aos candidatos às eleições deste ano, lançado pela Coalizão Brasil em junho, têm como pressuposto a visão de futuro do movimento, de que é possível e necessário produzir e conservar. A partir dessa premissa, o movimento fez a revisão de suas notas técnicas e contribuições, elaboradas ao longo de sete anos, e organizou as propostas de forma que elas possam dialogar com as demandas que serão mais urgentes no período eleitoral, como o combate à fome e a geração de emprego e renda. 

Um dos principais pontos defendidos no documento  é que a solução para esses desafios passa necessariamente pela preservação do meio ambiente, pelo enfrentamento às mudanças climáticas e pela transição para a economia de baixo carbono.

“A nossa grande mensagem para o período eleitoral é que você não vai resolver nenhum dos grandes problemas do país sem conservar”, afirma Paulo Dallari, diretor de Relações Governamentais da Natura &Co.  

Dallari e Renata Piazzon, diretora do Instituto Arapyaú, ambos integrantes do Grupo Executivo da Coalizão, coordenaram o processo de elaboração do documento.

“Levantamos 48 propostas, fruto de sete anos de convergência entre os membros da Coalizão, e realizamos um processo participativo de priorização”, conta Piazzon.

Após as eleições, a Coalizão pretende apoiar os governos de transição e as novas gestões na construção de ações e políticas concretas para promover a agenda agroambiental.

Confira os principais trechos da entrevista:

Qual foi o ponto de partida e as premissas que nortearam a elaboração das propostas para os candidatos?
Renata Piazzon – A Coalizão já havia feito um processo bem rico em 2018, quando chegou a 28 propostas para os candidatos das eleições daquele ano. Inspirados nos aprendizados obtidos, constatamos que era necessário priorizar propostas que dialogassem com os temas com que o eleitor se identificaria mais neste ano.
Inicialmente, formamos um hub de inteligência política com outros coletivos e instituições, como Uma Concertação pela Amazônia, Amazônia 2030 e Instituto Clima e Sociedade, para entender quais seriam os temas-chave que conectam o cidadão e eleitor a nossa agenda. Entendemos que a atuação da Coalizão deveria ser voltada para a construção de propostas para uma nova economia, que gera emprego sem desmatamento.
Levantamos 48 propostas concretas, fruto de sete anos de convergência entre os membros da Coalizão, e realizamos um processo participativo de priorização com as lideranças dos Fóruns de Diálogo e Forças-Tarefa, seguido da validação no Comitê Eleições, no Grupo Estratégico e no Grupo Executivo. O documento-síntese tem, assim, 15 propostas.

Como foi o processo de construção para se chegar nas três mensagens chave entre os membros?
Paulo Dallari – É importante destacar a ampla participação que aconteceu. Tivemos a preocupação de envolver as lideranças das diferentes instâncias da Coalizão para engajar o movimento como um todo, aproveitando a riqueza e os perfis muito diversos de seus 300 membros. Fizemos perguntas, montamos formulários, geramos etapas de participação e várias fases de validação, em um processo interno muito participativo. Isso fez com que o documento apresentado de fato representasse toda a pluralidade da Coalizão. Certamente, cada membro vai se identificar diretamente com pelo menos um dos itens que está lá. O documento tem conexão com o período eleitoral, mas também é uma síntese da produção da Coalizão nos últimos anos, que é muito substancial.

Quais foram os desafios para a elaboração desse documento?
Dallari – A agenda de sustentabilidade foi muito ativa nos últimos anos, para o bem e para o mal, e a Coalizão produziu muito nesse período. Então, um primeiro desafio foi elencar o que havia sido importante naquele momento, mas que não são necessariamente os mais críticos para atacar agora, e quais se conectavam com o período eleitoral. Outro desafio foi abordar questões muitas vezes técnicas e sutis e traduzir isso para uma linguagem eleitoral, que as vezes é menor que um tuíte.

Piazzon – Houve o desafio de relacionar a agenda do uso do solo com os eleitores brasileiros e tornar as mensagens claras e objetivas. Agora temos pela frente o desafio de engajamento. E aí há um chamado forte para que todos os membros disseminem as mensagens, para que elas cheguem no maior número de candidatos e pré-candidatos nas esferas federal, subnacional e Congresso. E também temos o desafio de engajamento nas redes sociais.

Como os elementos e mensagens-chave apresentadas no documento se conectam com o futuro que se quer para o país?
Piazzon – Antes de respondermos, gostaria de destacar que fizemos questão de colocar no início do documento que o respeito à democracia é inegociável. É importante, neste momento, reforçar o respeito às instituições e à democracia.
A questão agroambiental é uma política de Estado e não de governo, e faz parte da Visão 2030 -2050 da Coalizão. Quando o país conseguiu reduzir o desmatamento de 2004 a 2012, o PIB agropecuário cresceu. Hoje vemos o desmatamento crescendo e todos os indicadores de saúde, pobreza, saneamento e infraestrutura piorando. Então, buscamos trazer nesse documento a visão da agenda agroambiental como agenda de prosperidade, que gera renda e emprego, combate à fome e tem como consequência a redução do desmatamento. Há um pilar social muito forte nessa construção de um novo paradigma de desenvolvimento e de nova economia que queremos trazer para o país.

Dallari – Qualquer visão de futuro da Coalizão só se realiza no ambiente democrático. Uma coalizão como esta e as suas propostas não aconteceriam em outro ambiente. Agora, todas as propostas que estão colocadas partem de alguns pressupostos da Coalizão. O primeiro é que é absolutamente possível conciliar produção e desenvolvimento econômico com conservação e sustentabilidade. Quando falamos em combate à fome, geração de emprego e renda e desenvolvimento econômico, é possível fazer isso conservando. Mas pode-se ver essa questão de outro ângulo, que é a nossa grande mensagem para o período eleitoral: você não vai resolver nenhum dos grandes problemas do país sem conservar e sem ter uma agenda de fato sustentável em todas as áreas. Caso contrário, qualquer solução será paliativa.
Não se resolverá a fome sem cuidar das florestas. Não se conseguirá gerar emprego e renda sem transição para uma economia verde. E você não vai posicionar o Brasil como um país desenvolvido se ele não estiver inserido nas discussões econômicas mundiais, que são discussões verdes, de mudanças de matriz energética e de meios de produção.

Passadas as eleições, quais serão os passos seguintes da Coalizão em relação às propostas?
Dallari – Queremos que o documento gere debate dentro do período eleitoral, que municie os eventuais eleitos com ideias que podem fazer parte de um plano concreto e que a Coalizão apresente propostas e ações políticas para atender aquelas ideias que saíram do processo eleitoral como prioritárias. Isso precisa ficar claro. O processo eleitoral inverte a lógica das prioridades. Você não tem prioridades de governo, tem prioridades diretas da população.
Após as eleições, queremos conseguir atuar junto aos governos de transição para levar sugestões de medidas que possam ser implementadas para atender as prioridades que esse governante terá já para os primeiros dias e meses e depois poder acompanhar, afinar e trabalhar numa agenda de governo.
Vamos começar a trabalhar nas notas técnicas no segundo semestre, porque, enquanto o debate público for se desenrolando, começaremos a entender quais dessas propostas de fato serão absorvidas e priorizadas.

No debate realizado na plenária, em junho, falou-se muito do desafio de inserir a pauta ambiental na pauta dos candidatos, e que uma forma de fazer isso é chamar a atenção da população para esse tema. Como fazer isso?
Dallari – Espalhar a palavra é o maior desafio, porque a população é bombardeada por todo tipo de informação, propostas e demandas. Como filtrar? O melhor jeito de chegar nas pessoas e eleitores é apresentar as questões gerais e estruturais de um modo conectado às preocupações do dia a dia. O preço do café está alto devido a uma quebra de safra, que aconteceu porque o clima está desorganizado, porque nós temos um impacto direto na perda de florestas e no excesso de emissões. Para ter café a preço razoável, é preciso equacionar essas questões. Há desafios muito concretos que as pessoas vivenciaram e vivenciam, que estão diretamente relacionados à situação ambiental. O eleitor não vai olhar só para a questão ambiental, mas ela precisa fazer parte do leque de temas críticos colocados na balança quando ele decide em quem vai votar.