O novo cofacilitador da Coalizão Brasil, José Carlos da Fonseca Jr., destaca que a capacidade de articular diálogos, em um período marcado por polarização, ganha relevância maior com a proximidade do período eleitoral

JC da Fonseca 800 439Foto: Divulgação

Diretor-executivo da Indústria Brasileira de Árvores (Ibá) e embaixador com 40 anos de carreira, José Carlos da Fonseca Jr. é o novo cofacilitador da Coalizão Brasil. Ele assumiu o cargo no dia 14 de dezembro, durante a 2ª Plenária de 2021, no lugar do engenheiro Marcello Brito, que também deixou recentemente a presidência da Associação Brasileira do Agronegócio (Abag).

Fonseca passa a compartilhar a facilitação do movimento com Rachel Biderman, vice-presidente sênior para as Américas da Conservação Internacional (CI), cofacilitadora desde dezembro de 2020.

Além das funções diplomáticas, quando serviu em vários países, Fonseca também atuou como assessor especial e chefe de gabinete de dois ministros da Fazenda, Marcílio Marques Moreira e Pedro Malan. Foi eleito deputado federal pelo Espírito Santo em 1998. Depois, serviu em seu estado como secretário da Fazenda e da Casa Civil.

Nesta entrevista ao Boletim da Coalizão, Fonseca, que também é colíder da Força-Tarefa Mercado de Carbono, fala sobre as expectativas e o papel da Coalizão Brasil em 2022. “À medida que nos aproximamos do período eleitoral, a capacidade da Coalizão de articular diálogos ganha mais relevância”, afirma. A participação brasileira no mercado global de crédito de carbono e o imperativo do combate ao desmatamento, bem como a implementação do Código Florestal, estarão igualmente em destaque neste ano, na opinião do novo cofacilitador. “A implementação integral do Código Florestal é um assunto de grande importância, que contribui para o esforço de combate à ilegalidade.”

Confira os principais trechos da conversa.

O que levou você a se envolver com a agenda de clima, florestas e agricultura e como conheceu a Coalizão Brasil?

Tenho 40 anos de carreira diplomática e há quase três anos estou na Ibá, que por sua vez é membro da Coalizão desde o nascimento do movimento. Então, quando eu e o Paulo Hartung [presidente executivo da Ibá] chegamos à associação, no início de 2019, herdamos a participação na Coalizão. O Paulo passou a integrar o GE (Grupo Executivo) e acabei muitas vezes sendo seu suplente no grupo. Depois de um tempo, tornei-me colíder da FT Mercado de Carbono. Participo de outras FTs e acompanho a discussão tanto do GE quanto do GX (Grupo Executivo) informalmente.

A Ibá tem uma atuação forte na área de sustentabilidade e eu ajudo a coordenar boa parte dessa agenda. Muitos temas da Coalizão se entrelaçam com os nossos e, por conta disso, temos uma participação bem próxima da pauta do movimento.

Com relação à agenda internacional da Coalizão, até por eu ser diplomata, os facilitadores me chamavam para participar de eventos internacionais e reuniões com embaixadas e governos estrangeiros. A frente de advocacy é outra dimensão que acompanho de perto, porque passei pela política e o Paulo também. Assim, minha ligação próxima com a Coalizão vem desse período de quase três anos, e agora será maior. 

Qual o papel que o movimento tem e pode ter, em sua opinião, para o país?

Vejo um papel cada vez mais relevante em temas que às vezes atraem muito da polarização que caracteriza o Brasil de hoje. A capacidade que a Coalizão desenvolveu de fazer se sentarem em torno da mesa atores que não só muitas vezes pensam diferente, como às vezes têm perspectivas até mesmo antagônicas, para construir posições de convergência, é cada dia mais importante em qualquer lugar e em qualquer assunto, mas em especial no Brasil e nos temas da nossa pauta.

Além disso, à medida que nos aproximamos do período eleitoral, nossa capacidade de articular diálogos ganha mais relevância. Se possível, como foi feito há quatro anos, devemos levar e partilhar essas convergências – que sempre temos que revisitar - com os possíveis candidatos que disputarão o apoio dos brasileiros para governar o país nos próximos quatro anos. A agenda da Coalizão necessariamente fica na intersecção do público com o privado, então temos que ter essa capacidade de interlocução, de advocacy, de influência e de crítica, preservando os canais de diálogo e buscando construir convergências interna e externamente, com a sociedade e com o mundo da política, nos planos nacional, subnacional e até internacional.

O que você espera da função de novo cofacilitador da Coalizão? Qual será o foco de sua atuação?

Esse formato de dois facilitadores faz sentido: um cofacilitador que traz um perfil mais da sociedade, das organizações da sociedade civil, enquanto outro vem de uma caminhada mais representativa do setor privado. Essa combinação reflete bem a heterogeneidade e a pluralidade da Coalizão. Isso é um valor em si mesmo, que precisamos preservar e cultivar. A força da Coalizão está justamente nesse desafio estrutural e permanente de construir convergência em cima da pluralidade e da discussão. Vejo como meu objetivo e missão manter esse processo de maneira produtiva, como vem sendo conduzido, preservando a boa harmonia. Harmonia não significa concordância plena, mas o respeito à discordância e a busca por convergência. A relação entre os cofacilitadores tem que ser madura e respeitosa, atenta à circunstância dos diversos lados que representam, e pretendo continuar fazendo isso, mantendo a linha que os predecessores vieram fazendo.

Outra coisa bacana é que as pessoas que foram facilitadoras prosseguem com o vínculo com o movimento. Quero muito manter os nossos predecessores, André Guimarães [diretor executivo do Ipam] e Marcello Brito, bem próximos da nossa dupla de facilitação, ajudando como conselheiros, como pessoas que passaram por isso – e aí está a beleza de nunca ter um só porta-voz ou representante, mas, sim, muitos de nós. Os facilitadores antigos nos aconselham e ajudam a organizar os debates e discussões internamente.

Você falou bastante dessa característica da Coalizão de buscar convergência. Como isso tem contribuído para o avanço da busca pela conciliação entre produção e conservação? 

A grande crença que nos une é o desenvolvimento sustentável. Quando se tem essa visão e se acredita nisso como valor, o próximo passo é reconhecer que não há antagonismo ou contradição entre desenvolver e gerar riqueza das mais diversas maneiras e, ao mesmo tempo, conservar os recursos naturais. Então acredito em buscar caminhos, por exemplo, pela inovação, ciência e tecnologia, para aumentar produtividade. Com ganhos de produtividade, se economiza no uso de recursos naturais, acredita-se na rota da sustentabilidade e em investir em economia circular, na reciclagem e na renovabilidade.

O meu setor, que representamos na Ibá, é um bom exemplo disso. É um setor da bioeconomia em grande escala. Plantamos mais de 1 milhão de árvores todos os dias no Brasil. Temos mais de 9,5 milhões de hectares de árvores cultivadas com fins industriais, ao mesmo tempo em que conservamos mais de 6 milhões de hectares em florestas nativas. Acho que somos um bom case de desenvolvimento sustentável na veia. Fazemos a diferença na vida das pessoas, com 1,5 milhão de empregos diretos e indiretos. Se olharmos empregos e o que compartilhamos de valor em mais de mil municípios, afetamos mais de 3 milhões de pessoas. Geramos mais de US$ 10 bilhões em receitas via exportações e somos um grande contribuinte de arrecadação de impostos.

Como nós, há vários setores presentes na Coalizão que aprenderam o caminho do desenvolvimento sustentável real. Não há dúvida de que desenvolvimento versus conservação é um falso dilema. O consumidor tem essa consciência hoje, o eleitor tem cada vez mais essa consciência no mundo inteiro, e no Brasil não há de ser diferente. É um bom desafio que temos pela frente, de seguir avançando na ideia de desenvolvimento sustentável.

Quais são as expectativas para 2022 para a Coalizão? Quais são as frentes que mais precisam avançar ou são mais urgentes e outras que terão que vir junto?

Teremos de dar muita atenção ao cenário político, porque nossa agenda depende de interações com o poder público. Uma eleição geral nos traz a oportunidade de, feito ou atualizado o nosso dever de casa, definir nossas prioridades e oferecer a quem estiver nessa disputa visões estratégicas de temas tão importantes como desenvolvimento sustentável, uso do solo, a questão do imperativo de combatermos a ilegalidade, como no desmatamento, seja por grilagem, seja por garimpo ilegal ou outras atividades ilícitas, que são muito prejudiciais ao Brasil e à sua imagem como um todo. Essas são agendas que nos mobilizam.

Existe a necessidade de seguir participando das discussões mundiais sobre a regulamentação do Artigo 6 do Acordo de Paris, para que, ao ser constituído o mercado global regulado de créditos de carbono, o Brasil possa ter seus interesses ali refletidos. Enfim, tem uma lista grande de temas que estão nos princípios gerais do Livro Verde da Coalizão. Estes princípios continuam importantes ainda hoje e agora precisam ser revisitados para que encontremos a moldura adequada e atualizada para que se tornem a nossa linguagem diante, por exemplo, de um cenário de decisões políticas importantes como as que serão tomadas em um ano de eleições gerais.

A Coalizão vai precisar continuar ativa, atuante e atenta, tanto para propor quanto para reagir eventualmente a riscos de retrocessos ou de descaminhos. A ideia é que nossa capacidade de interagir, dialogar, construir, buscar consenso sem radicalismo, mas com firmeza e com base na melhor ciência, prossiga pelos tempos vindouros.

Você falou um pouco do cenário internacional, mercado de carbono, desmatamento e o pano de fundo das eleições. Além desses, quais são os temas que devem ganhar relevância em 2022?

A implementação integral do Código Florestal é outro assunto de grande importância. A Coalizão, afinal, nasceu no contexto do grande debate que levou à aprovação do Código. Sabemos que é uma peça legislativa de grande qualidade, bem-feita e democrática, porque reflete um longo período de debate amplo e plural, mas que infelizmente até hoje tem aspectos importantes que não estão plenamente aplicados. São aspectos ainda sujeitos a discussões judicializadas, que não estão definitivamente assinaladas ou orientadas pelo Poder Judiciário. Então, a plena execução do Código Florestal é um tema de grande importância, que contribui para o esforço de combate à ilegalidade, quando se pensa em regularização fundiária, no Cadastro Ambiental Rural (CAR) e em sistemas que precisam ser cada vez mais respeitados e operacionalmente credíveis, com base nas melhores tecnologias. 

Todos esses temas têm alguma relação com os Fóruns de Diálogo e as FTs da Coalizão. Você mesmo é colíder de uma delas. O que podemos esperar desses grupos em 2022?

A força vital da Coalizão está na pluralidade e na heterogeneidade de sua composição, mas está também no tipo de governança que foi estabelecido, que permitiu que essa diversidade estivesse refletida internamente, dando oportunidade e voz para muitos atores e especialistas que têm uma contribuição efetiva a dar ao debate, que se dá sobretudo nesses níveis mais técnicos das FTs. Um dos papeis importantes que vejo no GE e no GX é o de estimular, prestigiar e dar força para que as FTs possam ter plena capacidade de esgotar os assuntos, chamar os melhores especialistas, provocar diálogos sem tabus, para que todas as opiniões sejam ouvidas e assim manter rica a experiência da Coalizão.

Uma das prioridades deve ser o fortalecimento contínuo das instâncias de debate e discussão, para que as instâncias deliberativas, sobretudo o GE, possam definir estratégias com base no que houver de melhor em termos de resultados dos debates. São debates entre aqueles que trazem, com boa fé, sua melhor visão e opinião sobre os temas e desafios e trabalham ouvindo as outras visões e perspectivas. Daí que nasce a força na base, que é levada e traduzida depois nos posicionamentos da Coalizão. A credibilidade que surge desse processo muito democrático de ausculta permanente e ativa é um patrimônio que a Coalizão precisa saber valorizar cada vez mais.