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O quinto webinar preparatório para a COP 26 realizado pelo jornal Valor Econômico em parceria com a Coalizão Brasil aconteceu em 25 de agosto, com o tema “O Acordo de Paris e a Amazônia: oportunidades para produzir e conservar”. A discussão foi impactada pelo último relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), divulgado no início daquele mês. Uma das conclusões trazidas pelo documento é de que o mundo atingirá o aumento de 1,5 oC na temperatura média nas próximas duas décadas, ou seja, bem antes do previsto, caso não haja mudanças radicais na quantidade de emissões de gases de efeito estufa.

Participaram do webinar Malu Nachreiner, presidente da Divisão Agrícola da Bayer do Brasil; Luciana Nicola, superintendente de Relações Institucionais, Sustentabilidade e Empreendedorismo do Itaú Unibanco; Ricardo Abramovay, professor sênior do Instituto de Energia e Ambiente da Universidade de São Paulo (USP); e Salo Coslovsky, professor associado da Universidade de Nova York. A mediação foi de Denise Hills, diretora global de Sustentabilidade da Natura & Co e de Daniela Chiaretti, repórter especial de Ambiente do Valor Econômico.

Nachreiner, da Bayer, contou sobre o compromisso da empresa, a nível global, com a Coalizão Leaf, formada por Estados Unidos, Noruega e Reino Unido, com o objetivo de investir US$ 1 bilhão em projetos, propostos por órgãos nacionais e subnacionais de países com risco de desmatamento, em Soluções baseadas na Natureza (SbN). A meta dessa iniciativa é capturar 100 milhões de toneladas de carbono nos próximos cinco anos e a Bayer é uma das nove empresas patrocinadoras.

“Precisamos expandir o conceito de SbN trazendo o agro para essa discussão. É importante, no âmbito da Coalizão Leaf, conectar as forças públicas e privadas para alcançar esse resultado e esse movimento tem tudo a ver com a COP 26”, disse a executiva.

Luciana Nicola, do Itaú, contou sobre o envolvimento do banco no financiamento de iniciativas como a Pro Carbono, implementada pela Bayer junto a agricultores que se disponham a produzir mais com menor emissão de carbono. No Brasil, são 500 agricultores contemplados na safra 2020/2021.

Nicola ressaltou que iniciativas isoladas não são o suficiente para dar conta da complexidade das cadeias da sociobiodiversidade, em especial na Amazônia: “É preciso pensar o combo todo. Temos de garantir ao produtor o valor justo da produção e do crédito carbono.”

Há, ainda, necessidade contínua de pesquisa sobre riscos e oportunidades para a região. Nesse sentido, Salo Coslovsky comentou sobre o Projeto Amazônia 2030, formado por pesquisadores brasileiros, incluindo ele, que buscam alternativas e conhecimento para gerar oportunidades de promoção para o desenvolvimento sustentável e regenerativo em prol do bioma.

No entanto, para regulamentar e tirar do papel o Artigo 6 do Acordo de Paris, que trata da possibilidade de cooperação entre países para redução das emissões, por meio de um mercado de carbono, Coslovsky acredita que, para além de pesquisa e mapeamento de oportunidades – muitas já são conhecidas –, é preciso um mercado de carbono regulado e com fiscalização efetiva por parte da esfera governamental.

“Só assim as empresas e o mercado financeiro serão obrigados a entrar nesse mercado e comprar crédito de carbono por um preço significativo. O mercado voluntário é volátil, pequeno. A chance de ele crescer é muito menor porque, se o crédito de carbono ficar caro, as pessoas deixarão de comprar”, disse, lembrando que a lógica se aplica tanto em produtos de baixa escala, como a castanha, como os de grande escala, como a soja.

Ricardo Abramovay ressaltou o momento difícil pelo qual o país passa, com as agressões constantes sofridas pelo bioma amazônico e pelos povos que nele habitam, enfrentando problemas como grilagem de terra por organizações criminosas, queimadas e garimpo ilegal. E reforçou a necessidade de implementação de infraestrutura para aumentar o valor dos produtos da floresta e para emancipar os atores envolvidos na cadeia da sociobiodiversidade.

“É preciso ter cuidado com a ideia de que, se a gente fizer bioeconomia, a gente faz recuar o crime e a destruição. Não é assim que funciona. Se não tivermos instituições fortes, operantes, democráticas e participativas, não teremos uma bioeconomia forte”, alertou.

O sexto e último webinar preparatório para COP 26 acontecerá em 28 de setembro, às 14h. As inscrições podem ser feitas aqui. O tema será as lições aprendidas, recomendações e próximos passos para o Brasil no âmbito do Acordo de Paris.

Para saber como foi o primeiro webinar, sobre o que estará em jogo na COP, acesse aqui. O segundo webinar foi em torno do tema “O que diz a Ciência: o papel do Brasil no cenário climático internacional” – saiba mais aqui. E para saber como foram os webinários sobre “O papel do setor privado brasileiro frente às mudanças climáticas” e “O Acordo de Paris e as oportunidades para conciliar produção agropecuária e conservação no Cerrado”, acesse aqui.