Coalizão Brasil promove debate sobre o Brasil na nova década

 

 

As perspectivas econômicas, políticas, ambientais e internacionais para o Brasil foram tema de um debate, promovido pela Coalizão Brasil no dia 2 de dezembro, com a participação de Carlos Ayres Britto, ex-ministro do Supremo Tribunal Federal, Monica de Bolle, pesquisadora do Peterson Institute for International Economics, e Rubens Barbosa, ex-embaixador nos Estados Unidos e Reino Unido. O evento "O Brasil amanhã: meio ambiente, política e economia na nova década” aconteceu durante a Segunda Plenária de 2020 da Coalizão Brasil.


Os especialistas falaram sobre a Constituição brasileira e interesses nacionais, a expectativa em torna da relação do Brasil com o novo governo norte-americano de Joe Biden, a agenda ambiental na diplomacia brasileira e o papel de organizações como a Coalizão, entre outros tópicos.


Segundo Ayres Britto, o tema do meio ambiente tem na Constituição um tratamento atual e arejado, que afirma que é de uso comum de todos e direito e dever da sociedade preservá-lo. O jurista afirmou que o documento tem outro capítulo que versa sobre ordem econômica, fundado tanto na valorização do trabalho humano quanto na livre iniciativa e tem, por fim, assegurar a todos uma existência digna. “O que nos cabe é conhecer bem a Constituição e propagandeá-la. O nosso problema não é de Constituição. Pelo contrário, se estamos em crise, é porque temos andado de costas para ela”, disse.


Aproveitando a menção à Constituição, Monica de Bolle afirmou que uma política econômica para o Brasil deveria ter quatro eixos: meio ambiente, proteção social, educação e saúde. “Tudo isso está definido na nossa Constituição”, comentou ela, que também acredita que esses serão os nortes da administração de Joe Biden, assim como já são parte da política da Europa na retomada pós-pandemia. “O Brasil tem posição privilegiada para tratar dessas questões. O que falta é visão e, talvez, vontade política de remodelar a política econômica em torno desses pilares.”


A especialista ressaltou ainda que a questão ambiental pode ou não ser um ponto de tensão na relação entre Brasil e Estados Unidos. Lembrou que o agronegócio brasileiro se beneficiou do “selo verde diplomático” que recebeu de diversos países, e que isso está sendo perdido. “A discussão sobre políticas ambientais, sobre como o Brasil vai se posicionar - e está nas mãos do governo brasileiro esse posicionamento -, é o que de fato pode determinar como o país vai lidar com um de seus principais parceiros comerciais.”

 

Papel da diplomacia e investimentos


O papel chave da diplomacia brasileira nas questões ambientais também foi abordado no debate. O diplomada Rubens Barbosa destacou que o meio ambiente, a mudança climática e a Amazônia se tornaram temas globais e que as atuais políticas brasileiras para eles podem trazer consequências econômicas, políticas e comerciais para o País. “Poderia ser exposta, no exterior, uma nova atitude para a Amazônia, para a proteção ao indígena, para a promoção de energia limpa e redução de emissões de gases de efeito estufa por meio de ações bilaterais, nos fóruns internacionais e instituições financeiras.”


Barbosa lembrou, ainda, que o país deve levar ações concretas a Glasgow, onde acontecerá a COP do Clima, e também à COP da Biodiversidade, que será na China, em 2021. “A minha visão para os próximos anos é por uma efetiva política ambiental, englobando obrigações internas e compromissos externos, por meio da diplomacia ambiental.” Essa diplomacia faz parte, segundo ele, do foco que o Itamaraty deve ter na defesa dos interesses nacionais.

 

O papel de organizações da sociedade civil


Para encerrar o debate, os participantes falaram sobre o papel de organizações como a Coalizão Brasil na sociedade, e concordaram que ele é essencial nos tempos atuais. “Essas organizações têm um papel fundamental, pela ausência de lideranças que existe hoje no Brasil”, afirmou Barbosa. “Quanto mais a voz da sociedade for ouvida, melhor”.


Ayres Britto lembrou que se vive hoje um processo de comunicação social em expansão. “A cidadania nunca se viu assim, tão ativada e tonificada.” Alertou, porém, que também é necessário cuidados. “Nós ainda estamos batendo cabeça, porque a Internet nos empoderou demasiadamente, e administrar o próprio empoderamento não é fácil.”


“Acho que este é exatamente o momento para se trabalhar dessa forma”, disse Monica de Bolle. “A pandemia nos trouxe a possibilidade desse tipo de engajamento. A quantidade de vínculos que temos conseguido formar, diálogos que temos conseguido ter, em rede, para o debate de ideias, é algo único e não podemos perder isso. Temos de continuar trilhando esse caminho de ter mais pessoas engajadas em uma causa comum, que seja do interesse do País e de todos.”


Para assistir ao debate completo, acesse o vídeo da Plenária. O evento começa no momento 1:18:15.