Webinar apresenta oportunidades e desafios para silvicultura de nativas no Brasil

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No dia 3 de julho, a Força-Tarefa Silvicultura de Nativas, do Fórum de Diálogo Floresta Nativa, da Coalizão Brasil, promoveu o webinar “Oportunidades e desafios para consolidar a Silvicultura de Espécies Nativas no Brasil”. O objetivo foi engajar membros e não membros no trabalho da FT, com cases bem-sucedidos de silvicultura de nativas. A audiência foi de mais de 170 pessoas e o webinar foi conduzido por Miguel Calmon, consultor do WRI Brasil e líder da Força-Tarefa.

Assista ao vídeo do webinar aqui.

Ana Bastos, CEO da Amata, apresentou o case das oito fazendas da empresa no estado do Pará, arrendadas entre 2008 e 2015. Do total de mais de 20 mil hectares, 80% são áreas de preservação e 20% são destinadas a plantação. A espécie nativa escolhida para o plantio foi o paricá, por, segundo Bastos, seu rápido desenvolvimento, boa produtividade, mercado relativamente estabelecido, entre outros fatores. Vencidos alguns desafios, como formar equipes e treiná-las e obter certificação FSC para as fazendas em tempo máximo de até dois anos após o início da operação, foram plantadas 7,2 milhões de árvores. Obteve-se, segundo indicadores da Amata, melhorias contínuas de produtividade. Ainda assim, o volume de madeira ficou abaixo do planejado.

“Há muita pesquisa ainda a ser feita, pois existe uma série de espécies possíveis e o paricá é apenas uma delas. Fizemos algumas tentativas para diversos usos, como lápis, mas o custo fica alto. Para produção de papel e celulose não funciona, pois a madeira não é densa o suficiente para esse tipo de aplicação. Descobrimos, no entanto, que é uma ótima opção para cabo de panela, mas, para fechar contrato de fornecimento, precisamos ganhar escala de produtividade parecida à do eucalipto, de 40%. Estamos em 27%”, contou Bastos. Apesar de ainda haver desafios, ela explicou que a floresta está bem constituída e o desenvolvimento na região foi interessante, assim como a restauração de áreas degradadas.

Na sequência, Bruno Mariani, CEO e sócio fundador da Symbiosis, apresentou o case da empresa, que testou a silvicultura de diversas espécies nativas de Mata Atlântica. “Essa escolha se deu por ser o bioma mais ameaçado, por estarmos mais próximos aos centros de consumo dessas madeiras e a apenas 200 quilômetros do porto para exportação”, disse.

A empresa já tinha conhecimento de indicadores de que empresas centenárias fora do Brasil têm ganhado dinheiro com reflorestação. “Por que não aqui, se as árvores, por conta do clima, crescem de três a quatro vezes mais rápido?”, indagou Mariani. A resposta, segundo ele, é a falta de conhecimento das nossas espécies. Por isso, um grande marco teria sido o lançamento há um ano, pelo WRI, de um trabalho junto à Fundação Renova, de áreas reflorestadas na bacia do Rio Doce, que muniu empresas e pesquisadores com dados sobre essa experiência.

A Symbiosis deu início ao projeto há 12 anos e, há 10, começou o cultivo com 56 espécies. Hoje, concentra-se em 22 nativas associadas a exóticas, como cedro australiano e mogno africano, para fazer sombra às brasileiras, que demandam por esse cuidado na fase juvenil. “No investimento florestal, o retorno é muito parecido com o de renda fixa: previsível e a longo prazo. Tivemos como resultado uma rentabilidade média de 12%, mas estamos visualizando a taxa interna de retorno em 17%, ou seja, são ganhos relevantes”, comentou Mariani. “Mas é importante ter reserva genética e melhoramento florestal. Mesmo com a crise da Covid-19, o investimento na silvicultura se mostrou muito estável”, disse.

 

Pesquisa e Desenvolvimento para uma nova economia florestal

Um dos subtemas da FT Silvicultura de Nativas é pesquisa e desenvolvimento. Daniel Piotto, professor e pesquisador do Centro de Formação em Ciências Agroflorestais da Universidade do Sul da Bahia, apresentou o histórico de criação de um programa de P&D voltado a silvicultura de nativas. A primeira etapa consistiu na análise de lacunas no conhecimento científico sobre as espécies nativas com valor comercial, na definição de prioridades para um programa de pesquisa, e no cálculo de valores a investir e retornos sobre o investimento. Depois, alguns pesquisadores, Piotto entre eles, fizeram a seleção de 15 espécies de Mata Atlântica e 15 da Amazônia. Os resultados foram publicados em um working paper pelo WRI, em outubro de 2019.

Agora, a Coalizão Brasil e o WRI Brasil trabalham no desenvolvimento de uma plataforma de P&D baseada na proposta do working paper. O professor Sebastião Venâncio Martins, da Universidade Federal de Viçosa, apresentou os principais tópicos que serão considerados pela plataforma, que deve abranger informações sobre sementes e mudas, melhoramento genético, manejo, produtos e mercados, política e legislação, bem como os resultados projetados e custos. “Do ponto de vista da viabilidade de escala mínima para um programa de P&D, é necessária uma área não menor que 10 mil hectares, e investimento em torno de 8 milhões de dólares”, disse. Para cada dólar investido em silvicultura, o benefício previsto é de 2,4 dólares.

A fase 2 do programa está sendo modelada pelo professor Luciano Verdade, do Centro de Energia Nuclear na Agricultura (Cena), da Universidade de São Paulo. As prioridades iniciais do programa já foram determinadas. Além da parceria estabelecida para compartilhamento de conhecimento em tecnologia de madeira entre a Reserva Natural da Vale, a Universidade Federal do Sul da Bahia (UFSB), a Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ) e a Universidade Federal de Lavras (Ufla), também serão feitos testes de produtos acabados junto a importantes atores do setor, como Tramontina e Tok&Stok.

No subtema marco regulatório, a FT analisa maneiras de fornecer segurança jurídica para os negócios em silvicultura de nativas. A FT realizou um levantamento das regras federais para exploração florestal, como a Lei da Mata Atlântica e o Código Florestal; o Plano de Manejo Florestal Sustentável (PMFS), voltado para florestas nativas e para florestas plantadas em reservas legais; a necessidade de declaração para floresta plantada em área de uso alternativo do solo; e a emissão de DOF (Documento de Origem Florestal) para exploração e comercialização de madeira.

Raul do Valle, Diretor de Direitos e Justiça Socioambiental do WWF-Brasil, falou dos atuais gargalos a serem enfrentados. Um deles é a necessidade de um cadastro para o plantio de nativas que, no entanto, ainda não foi regulamentado por todos os estados. “Nenhum deles tem uma forma simples, on-line, por exemplo, para serem realizados. E esse cadastro é fundamental para garantir a segurança jurídica do produtor”, disse Valle.

Outro desafio é o fato de a silvicultura de nativas submeter-se aos mesmos processos pelos quais passa a silvicultura de exóticas. “Isso é indevido, mas acontece porque há alguns anos não se pensava em plantar floresta nativa em escala. Agora que isso mudou, é preciso também modificar as regras, que não estão adequadas. São necessárias regras específicas para nativas, para diminuir custos. A lei 6938/81, que dispõe sobre a Política Nacional do Meio Ambiente, abrange isso, mas ainda é preciso que cada um dos estados estabeleça suas regras”, explica.

Para emissão do DOF, é necessário estar cadastrado no Sinaflor (Sistema Nacional de Controle da Origem dos Produtos Florestais), e aí está outro gargalo, segundo Valle. “Para o cadastro, há procedimentos que não estão adequados ao plantio de nativas e acabam envolvendo custos e taxas altas como se fosse o mesmo que plantio de exóticas. É preciso adaptar o Sinaflor para abrigar o cadastro de nativas de forma desonerada”, afirma. Por fim, o último grande desafio apontado são as taxas florestais nos estados, que trazem um custo alto para nativas.

Como alternativa para superar esses desafios, a proposta de Valle e do grupo envolvido na FT é dar início a um piloto em algum estado para adaptar, modificar ou criar regras que mostrem alternativas possíveis à silvicultura de nativas sem haver perda de arrecadação estadual.

 

Mercado de silvicultura de nativas

A terceira área temática da FT é mercado. Jorge Ribeiro, da Braúna Investimentos, apresentou aos participantes do webinar os principais usos de madeira no Brasil para espécies exóticas e nativas. Destacou que, até a década de 1990, a exploração era bastante concentrada nas nativas da Mata Atlântica. A partir dessa época, as nativas da Amazônia passaram a ser o foco.

“Nosso grupo acredita que vários arranjos de espécies são interessantes para produção, ainda que o valor agregado seja baixo, mas útil para embalagem, caixotaria e forma de concreto, por exemplo. A visão deve ser mais ampla do que o plantio apenas para o que consideramos o filé mignon do mercado, como madeira para vigamentos, pilares, telhados, lajes e outros”, diz Ribeiro.

Miguel Calmon, consultor do WRI Brasil, ressaltou que o desperdício de madeira ainda é muito grande no Brasil e lembrou da competição injusta com a madeira de extrativismo da Amazônia, onde prevalece alto índice de ilegalidade. “Outros desafios são produzir com sustentabilidade, ter uma produtividade crescente e preços competitivos em relação às exóticas de reflorestamento, que já constituem um mercado consolidado e de alta produtividade”, afirmou.

Para 2020, o grupo tem como plano de ação atualizar informações de mercado com base em dados recentes de empresas, institutos e consultorias; quantificar em termos de volume e preços os principais produtos; e identificar mercados para madeira de desbaste e produtos não madeireiros, como SAF (sistema agroflorestal).

 

Finanças e investimentos

Daniel Soares, analista de investimentos do WRI Brasil, e Grazielle Cardoso, do Instituto Arapyaú, apresentaram dados relacionados a investimento e créditos disponíveis para silvicultura de nativas. “A alocação de fundos com foco em países desenvolvidos é 17 vezes maior do que nos países emergentes. Isso sugere que há espaço para aumentar a alocação nestes últimos e, principalmente, no Brasil”, disse Soares.

Ele ressaltou ainda que o volume de contratos de crédito de bancos públicos e privados para atividades florestais ainda é muito pequeno em relação à área existente. As principais são nas linhas do Programa ABC, além de Pronaf e Pronamp para pequenos e médios agricultores, apesar das carências curtas e da dificuldade de acesso de produtores a esses dois últimos. “Há oportunidades para melhorar essas linhas e aumentar o capital de crédito para esses produtores”, explicou.

Para isso é preciso ampliar o portfólio de empreendimentos e diminuir a percepção de riscos por parte dos produtores e investidores, bem como engajar instituições financeiras para facilitar linhas de crédito e investimento em florestas e SAFs, segundo Soares.

“Muitas iniciativas já se mostraram interessantes do ponto de vista de retorno financeiro em silvicultura de nativas, mas são muito isoladas. Queremos conectá-las para agrupar as informações quanto ao retorno de investimento e mostrar a viabilidade do negócio, com produtos oriundos de modelos produtivos mais sustentáveis. Para isso, é essencial também trazer os agentes financeiros para a discussão. É muito importante manter essa conversa com os bancos, desenhando mecanismos juntos para viabilizar e melhorar o negócio”, complementou Cardoso.