Entrevista: Visão de 10 anos da Coalizão precisa começar hoje

Foto: Fernanda Macedo/Coalizão Brasil

A partir de janeiro de 2018, André Guimarães, diretor-executivo do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM), passa a ser co-facilitador da Coalizão Brasil, ao lado de Marcelo Furtado. A chegada de Guimarães marca também o início de um novo horizonte de trabalho para a Coalizão, que pretende traçar um plano de voo com uma visão de 10 anos para impulsionar a economia de baixo carbono no país.

Nesse horizonte, está previsto o momento das eleições brasileiras em 2018 e a Coalizão já começa a se organizar para conseguir influenciar os debates políticos do próximo ano, sem perder de vista os objetivos de longo prazo. Nesta entrevista, Guimarães comenta o trabalho da plataforma 2018 e da visão de 10 anos do movimento, além da sua chegada na facilitação da Coalizão Brasil.

A Coalizão acaba de anunciar que irá atuar de forma mais estratégica, a partir da construção de uma visão de longo prazo para uso da terra no país. Em que contexto está essa decisão? 

Há um entendimento de vários membros da Coalizão de que precisamos apresentar propostas de longo prazo para o país, especificamente na questão de uso da terra, que é a agenda na qual trabalhamos. Estamos em um momento de esgarçamento das relações, de polarização no Brasil. Nesse momento, precisamos do envolvimento das pessoas e das organizações que tenham alguma contribuição a dar. Portanto, entendo que essa é a maior motivação da Coalizão: ser proativa e apresentar uma proposta sensata e equilibrada, considerando que nosso maior ativo é a natureza, nossos solos, água, florestas, biodiversidade etc.

Qual será a principal contribuição da Coalizão para a sociedade ao mirar em uma estratégia de longo prazo?

Vejo três principais contribuições. A primeira é uma contribuição técnica. Nós temos, na Coalizão, um conteúdo, uma capacidade e um conjunto de organizações do setor empresarial e do terceiro setor que poucos movimentos têm. A segunda é buscar convergência, considerando nossa condição de movimento multistakeholder e multidisciplinar. Num ambiente polarizado, precisamos convergir e essa é uma contribuição que a Coalizão pode dar. E a terceira contribuição é provocar o país e a sociedade para olhar além de ciclos, que muitas vezes não são suficientes para a gente amadurecer um processo de desenvolvimento sustentável.

Nesse horizonte de 10 anos, qual você acha que será o principal desafio da Coalizão?

O desafio é lidar com o ambiente de polarização. O principal obstáculo e demanda de trabalho que teremos será convencer a sociedade brasileira e seus diversos setores – as lideranças políticas, empresariais, ambientalistas, os formadores de opinião, a mídia etc. – de que a gente precisa planejar o país num largo prazo.

O Brasil está cansado de ideias de curto prazo, de discussões que duram pouco, de leis que não pegam. A vacina para isso é a gente olhar para o horizonte e planejar o que vai acontecer em cada ano, para que lá na frente a gente alcance o fim do desmatamento, a preservação dos recursos naturais, a ampliação da capacidade produtiva do país, mais emprego e mais renda. E isso é necessariamente uma visão de longo prazo, não é possível resolver tudo isso no ciclo de um governo.

Quais são os principais acontecimentos ou marcos que podemos ter nesses próximos 10 anos para a agenda de clima, florestas e agricultura?

Nesses 10 anos, teremos alguns acontecimentos como as COPs, a revisão das NDCs, outras eleições etc. Será a qualidade do trabalho e do debate proposto pela Coalizão em cada um desses momentos que vai fazer dele um marco ou não. O Acordo de Paris, por exemplo, era uma reunião com data marcada e o que fez com que ela fosse diferente das conferências anteriores foi uma união de forças entre os países e uma contribuição da ciência para dizer ao mundo que precisávamos entrar em acordo. Esse momentum que foi criado em Paris permitiu que a COP 15 se tornasse um marco.

Qual é a importância do momento de eleições 2018 no Brasil para a Coalizão?

Nos últimos dois ou três anos no Brasil, a sociedade fez um grande movimento para substituir a presidente Dilma Rousseff pelo presidente Michel Temer. Essa mudança trouxe uma série de consequências políticas, sociais e econômicas. Tivemos perda de PIB, muitos sonhos frustrados das empresas, dos governos, dos ambientalistas e das pessoas nas ruas. Vivemos, então, um conjunto de frustrações nos últimos anos que gerou uma ressaca, principalmente em 2017. Nesse momento, a tendência das pessoas é de se resguardar e se manifestar pouco. Não tivemos manifestações na rua esse ano, não tivemos novas lideranças surgindo. O ano de 2017 foi um ano de ressaca e retração da sociedade. Em 2018, a sociedade irá exigir respostas, caminhos e novas ideias dos candidatos que irão liderar o próximo ciclo de quatro anos. Acredito que as eleições irão criar uma grande expectativa na sociedade.

É uma chance que temos também de engajar mais atores da sociedade nos debates da Coalizão, certo?

Sem dúvidas. O uso do solo brasileiro representa de um quinto a um quarto do nosso PIB. Enquanto o Brasil passou por uma retração econômica nos últimos anos, o setor de uso da terra aumentou de tamanho. Isso mostra o seu potencial. Mas nós não podemos seguir desenvolvendo o uso do solo no país em detrimento dos recursos naturais, das águas e das florestas. Para isso, temos que envolver não apenas quem defende a conservação das florestas e quem administra e gerencia a produção, mas também toda a sociedade, pois são impostos e empregos que estão sendo gerados e políticas públicas que estão sendo desenhadas. Isso tudo passa por benefícios ou perdas para toda a sociedade. Um setor que tem esse peso influencia todos os brasileiros. Temos que informar a sociedade e envolver o máximo de gente possível no debate.

Por outro lado, envolver-se com a agenda das eleições traz alguns riscos ao movimento, inclusive riscos reputacionais. Concorda?

Existem riscos, sim, e temos que evitá-los, por exemplo, o risco de sermos vistos de forma tendenciosa ou partidária. A Coalizão é, por natureza, apartidária e tem que se comportar, nesse relacionamento com os candidatos, dessa forma. O que o movimento defende é o equilíbrio entre produção agropecuária e conservação ambiental e uma posição forte do Brasil visando à segurança climática e alimentar do planeta. São pleitos apartidários que precisam ser traduzidos nesses trabalhos da plataforma 2018 – nas propostas aos candidatos, nas suas apresentações e no debate que a Coalizão vai provocar ao longo do ano. O que nos garante proteção é o nosso posicionamento apartidário, que deve ser protegido e zelado em todas as circunstâncias em que formos discutir com o público em geral ou com quem for candidato ou eleito.

Quando chegarmos ao fim de 2018 e, depois, ao fim desse período de 10 anos que a Coalizão está projetando agora, que indicadores poderão revelar se avançamos ou não?

A resposta é subjetiva. Não há indicadores de sucesso mensuráveis. Teremos que avaliar a percepção e a sensação ao fim desses períodos. Algumas delas seriam, ao fim de 2018, perceber que a sociedade conquistou uma melhor clareza sobre o seu futuro e de seus filhos e netos, identificou que existe um conjunto de lideranças capazes de conduzir o país nesse próximo ciclo de desenvolvimento, adquiriu um maior entendimento do seu poder no debate e decisões políticas etc. Se a gente conseguir um amadurecimento como sociedade ao longo do ano, ele certamente será externalizado e traduzido nas urnas com as escolhas que faremos para presidente, governadores e deputados e senadores. O resultado das urnas, mas não apenas ele, seria um resultado para a Coalizão.

No longo prazo, temos alguns indicadores mais objetivos como o aumento de renda e sua distribuição, indicadores de educação, econômicos e de desenvolvimento humano em geral, o PIB, etc. E também ter processos que permitam mais transparência, mais investimento e mais sustentabilidade no nosso desenvolvimento. Esses ganhos vão resultar em um país mais equilibrado e justo.

A partir de janeiro, a Coalizão passa a ter um novo modelo de facilitação, com você e Marcelo Furtado como co-facilitadores do movimento até maio de 2018. O que é facilitar um movimento tão diverso e com setores e atores tão diferentes?

Facilitar a Coalizão não é simplesmente liderar, dirigir ou gerenciar. É liderar, mas não de forma única. É dirigir em conjunto com o coletivo. É gerenciar as expectativas e as atividades de forma interativa e democrática. Portanto, a facilitação da Coalizão é muito baseada na escuta, no bom senso e na busca da convergência. O desafio da facilitação foi até hoje, e continuará sendo, maximizar o que a gente tem de bom e convergente e manobrar o que temos de divergente, que não constrói coisas novas. O maior papel da facilitação é manter as competências da Coalizão alinhadas para um objetivo convergente e comum.

O que podemos esperar como mudanças a partir desse novo modelo de co-facilitação?

Não esperem mudanças. Esperem um ganho de força, pois seremos agora dois facilitadores discutindo e pensando juntos. Mas, na prática, no dia a dia, não muda nada. Até porque a Coalizão é um conjunto de visões diferentes e esse é o grande patrimônio do movimento. O facilitador, os líderes dos Grupos de Trabalho, os Grupos Estratégico e Executivo, a coordenação e nossos membros são instrumentos para os debates e a convergência.

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